VAMOS FALAR SOBRE ANSIEDADE? -PARTE 2: OS TRANSTORNOS

A ansiedade tem sido motivo de muita atenção, principalmente nesta época de isolamento social, por causa da pandemia de coronavírus. Por isso, vamos falar sobre este tema novamente.

A seguir vou listar 10 fatos importantes sobre os transtornos de ansiedade:  

 

1) Os transtornos de ansiedade têm grande importância epidemiológica.

Com relação a estes transtornos:

  • O Brasil é líder no número de casos de pessoas diagnosticadas com transtorno de ansiedade na América Latina (OMS, 2017).
  • Há cerca de 18,6 milhões de brasileiros com este diagnóstico (OMS, 2017).
  • Eles tendem a acometer mais as mulheres do que os homens (Mc Lean et al., 2011).
  • Eles aumentam o risco de desenvolvimento de um quadro de depressão (Martin-Merino et al., 2010).

 

2) Muita gente não recebe nenhum tipo de tratamento.

  • Cerca de 40% das pessoas que recebem o diagnóstico de algum transtorno de ansiedade não estão recebendo nenhum tipo de tratamento agora (Martin-Merino et al., 2010).

 

3) Existem vários fatores de risco para desenvolver um quadro de ansiedade (Katzman et al., 2014):

  • História familiar de transtorno de ansiedade,
  • História de adversidades e trauma na infância,
  • Ser mulher,
  • Ter uma doença médica crônica (exemplo: cardiopatia ou doenças da tireoide),
  • Ter inibição comportamental.

 

->Inibição comportamental: é uma predisposição temperamental caracterizada por evitar ou fugir de situações e pessoas não familiares associado a uma tendência a escanear o ambiente procurando possíveis ameaças. Este traço tende a ser visto logo no início da vida. Foi descrito pela primeira vez pelos psicólogos americanos J. Kagan e J.S. Reznick.

 

 

 

4) Os principais transtornos de ansiedade são:

  • Transtorno de Ansiedade Generalizada: indivíduo tem ansiedade e preocupação persistente e excessiva há mais de 6 meses, relacionadas a várias esferas da vida, como trabalho, segurança da família e dinheiro por exemplo. Ocorrem, ainda, sintomas físicos como fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade, inquietude, insônia e tensão muscular. Há prejuízos funcionais por causa do transtorno.
  • Transtorno do pânico: indivíduo tem crises de pânico repetidas e fica constantemente preocupado em ter novas crises ou muda seu comportamento por causa da crise de pânico (e.g. deixa de ir ao shopping por medo de ter uma crise de pânico).
  • Ansiedade social: o indivíduo tem medo ou se esquiva de situações sociais que envolvem o risco de ser avaliado. A preocupação, nesse caso, é ser avaliado de forma negativa por terceiros, ser rejeitado, sofrer críticas ou ofender as outras pessoas.
  • Fobia específica: indivíduo tem ansiedade, apreensão ou esquiva de objetos ou situações específicas. A situação fóbica induz quase sempre medo ou esquiva de forma persistente e desproporcional ao real risco. Há vários tipos de fobia específicas: a animais, a sangue, a injeção e a avião por exemplo.

 

5) Não existe um exame laboratorial que diagnostique a ansiedade.

  • O psiquiatra faz uma avaliação clínica baseada no relato do paciente e de familiares para fazer o diagnóstico. Nessa avaliação, é levado em conta o que o paciente refere como pensamentos, emoções e comportamentos disfuncionais.
  • Algumas vezes, seu médico pode pedir exames laboratoriais para ter certeza de que outras condições de saúde não são a causa dos seus sintomas. Por exemplo, a alteração da função tireoidiana pode gerar sintomas físicos parecidos com ansiedade ou pode inclusive gerar um quadro de ansiedade.
  • Alteração do nível sérico (“no sangue”) de serotonina – “um neurotransmissor relacionado ao bem estar” ou do nível do hormônio cortisol – “um hormônio ligado a resposta de estresse” NÃO DÁ o diagnóstico de ansiedade. Apesar de existirem estudos associando essas alterações com transtorno de ansiedade e depressão, estes achados são INESPECÍFICOS, ou seja, ocorrem mesmo em pessoas que não têm ansiedade ou depressão. Diretrizes clínicas internacionais não recomendam a solicitação destes exames.

 

6) O psicólogo clínico ou o médico psiquiatra diagnosticam e tratam os transtornos de ansiedade.

 

7) Livros de autoajuda e programas de terapia baseados em computador trazem melhora nos sintomas de ansiedade (Katzman et. al., 2014; Coull & Morris, 2011; Titov et al., 2010) apesar de não serem a primeira linha de tratamento para transtorno de ansiedade grave.

  • Todos os pacientes com ansiedade devem receber orientações sobre seu diagnóstico e possibilidade de tratamento.

 

8) Os transtornos de ansiedade podem ser tratados com medicação ou psicoterapia.

– Estas duas modalidades de tratamento têm eficácia equivalente para o tratamento da maior parte dos transtornos de ansiedade (Katzman et al., 2014).

–   A escolha entre uma modalidade e outra depende de vários fatores que incluem, entre outros, a preferência do paciente e a gravidade dos sintomas.

 

9) As principais medicações indicadas no tratamento da ansiedade são os ANTIDEPRESSIVOS.

  • Exemplos de antidepressivo incluem: fluoxetina, escitalopram, sertralina, venlafaxina e amitriptilina. Essas medicações não são “tarja preta” e, portanto, não criam dependência. Há uma demora de 2-3 semanas para início do efeito terapêutico. Por isso, é possível que seu psiquiatra combine essas medicações com ANSIOLÍTICOS (clonazepam, alprazolam ou bromazepam, por exemplo). Essas medicações costumam ser prescritas no começo do tratamento enquanto o antidepressivo não inicia seu efeito. Os ansiolíticos, diferente dos antidepressivos, apresentam o risco de gerar dependência após uso crônico. Por isso, eles tendem a ser prescritos por um curto período.

 

10) A Terapia Cognitivo Comportamental é um dos tipos de terapia que dispõe de evidência de eficácia em diversos transtornos de ansiedade.

  • Esta terapia ensina ao paciente formas alternativas de ver a si e ao mundo e formas alternativas de agir e reagir frente às coisas que lhe dão medo.

 

Este texto só tem objetivo informativo e não substitui uma consulta. Caso você apresente alguns dos sintomas acima, procure um especialista.

 

Referências:

American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.). Washington, DC: Author.

Coull G, Morris PG. (2011). The clinical effectiveness of CBT-based guided self-help interventions for anxiety and depressive disorders: a systematic review. Psychol Med: (41) 2239-2252.

Katzman, M.A., Bleau, P., Blier, P. et al.  (2014). Canadian clinical practice guidelines for the management of anxiety, posttraumatic stress and obsessive-compulsive disorders. BMC Psychiatry 14S1.

Martin-Merino E, Ruigomez A, Wallander MA, Johansson S, Garcia-Rodriguez LA. (2010). Prevalence, incidence, morbidity and treatment patterns in a cohort of patients diagnosed with anxiety in UK primary care. Fam Pract: (27) 9-16.

McLean CP, Asnaani A, Litz BT, Hofmann SG. (2011). Gender differences in anxiety disorders: prevalence, course of illness, comorbidity and burden of illness. J Psychiatr Res: (45) 1027-1035.

Organização Mundial de Saúde- OMS. (2017). Depression and other common mental disorders: global health estimates[Internet]. Geneva: WHO.

Titov N, Andrews G, Johnston L, Robinson E, Spence J. (2010) Transdiagnostic Internet treatment for anxiety disorders: a randomized controlled trial. Behav Res Ther: (48) 890-899.

 

Escrito por Dra. Lorenna Sena, que atua como médica psiquiatra na Clínica Avicena e no Corpo de Bombeiros do DF. Doutora em Psiquiatria pela UFRGS. CRM-DF: 25294 RQE: 16411

2020-06-09T14:36:39-03:00
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